Recuo, não sei se o meu carro ficou bem estacionado, mas hoje pouco me importa, estou num daqueles dias em que me apetece parar em plena 2º circular e provocar uma avalanche de carros a apitar atrás e mim, gosto de me sentir importante e provocar o tumulto, afinal é só disso que se trata. O meu espírito revolucionário já conheceu melhores dias. Não parei, continuei em frente, sempre as mesmas vistas citadinas de Lisboa que já nem ouso olhar para o lado, salvo raras excepções, como as de hoje. Olhei e impenetravelmente soube que não podia mais desviar a cara, um segundo que fosse. Estavam ali todas as memórias, encarnadas na cara de um perfeito desconhecido que fumava o seu cigarro enquanto ouvia Bublé alto. Fixei-me naquela imagem sem parar, perfeitamente estonteada e entorpecida, desconheço-lhe o nome, o primeiro e o último, desconheço-lhe também os reflexos que ele me trouxe.
E sou obrigada a olhar em frente, buzinaram.
Páro novamente, desta vez mergulhada na escuridão do Rio Tejo e penso... É exactamente por isso que nunca vou negar conhecer um estranho.
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