terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Verniz

Nas unhas trago o fetiche pintado legitimamente sem qualquer vestígio de amadorismo. São detalhes que na ocasião pouco importam. Chove lá fora com a fúria de um dia cinzento e amargo, por aqui as estrelas vão brilhando, à noite na altura em que a consciência quase adormece com a alma. É aqui que escrevo diálogos na parede e vou construindo rimas diversas sem que ninguém me oiça. Promovo o anonimato solitário sem multidões devastadoras, a arte como a inspiração, e se quisermos, como a vida é sempre um processo solitário, uno, nosso.
Por esta altura a confusão estala, as rimas vão desconectando todo o sentido metafórico, já nem a música que oiço, uma porcaria qualquer que encontrei no meu ipod ganha valor acrescentado no meu universo consciente. Percorro o mundo, Paris é o local divino e peregrino, contextualizado e profundamente lírico, no qual me inspiro para me fortalecer. Foi lá que encontrei das melhores coisas em mim e talvez nos outros, esta última ainda reflicto sobre a sua veracidade.
Vou lendo aqui e ali e vou ficando petrificada com o pensamento dos outros, a banalidade não tem o meu nome, ainda que a promoção à mesma esteja constantemente em modo repeat em todos os contextos sociais.
Às vezes sinto falta de conversas dignificantes e fortuitas, essas eu sei que só as posso ter com quem escolho, não com quem me escolhe. Também aqui gosto de ser livre. Subo o Chiado até ao Camões, alguém repara no meu verniz, olho com desdém, são raras as vezes em que gosto que me "notem" como sou ou como estou. Não questionem, não perguntem, não indaguem, ignorem quando tudo o que eu mais quero é ser ignorada. O meu verniz está lá, a minha consciência não. Se isto faz sentido? Quem sabe.

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