terça-feira, 13 de dezembro de 2011

crónicas volantes 2


Tirar um casaco escondido e amontoado do meu armário, perdido na memória de elefante que carrego comigo, como de resto a maioria de todas as coisas que me vou esquecendo, não devia ser desígnio de me lembrar de ti. Mas aconteceu, o cheiro do teu perfume, tanto tempo passado, continuava lá, dono de si mesmo, invencível pelo tempo e a dar saltinhos de alegria. Ele sentiu o quanto fiquei perturbada pela recordação, tanto sentiu que fiquei com aquele cheiro preso na consciência vazia de ideias. Era aquela, a única ideia que vivia em mim naquele dia. O terror das coisas simples passou a assumir na minha vida um forte pragmatismo da ideia de um Karma que eu não fiz por merecer. A irrelevância de qualquer gesto que tome no meu dia-à-dia faz-me temer o fundo das memórias esquecidas, esqueci-me de me lembrar e dois segundos depois, revisitam-me sem dó nem piedade. Podia ser só mais uma história, sem importância nenhuma, podia até ser inverosímil, não fosse esta minha tendência de não cortar o passado, um fardo duro de carregar.
E agora sempre que abrir a porta daquele armário vou-me lembrar que pode estar escrito o teu nome, os teus vestígios, vou fazer por esquecer, assim a minha condição me permitir.
Hoje decidi não te contar, achei por bem que já chega de ser eu a forçar-te que te lembres de mim e logo desisti da ideia de te ligar, no instante em que eu tenho garantidamente a certeza que ias atender. Hoje ganhei-te e hei-de ganhar-te sempre.

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