
Falava alto, tão alto que não conseguia perceber o atropelo das suas palavras. Era um dia de Inverno e eu estava sentada no banco do Jardim da Estrela a olhar o nada quando sou invadida por uns gritos ensurdecedores, resisto, finjo que os meus ouvidos não ouviram, concentro-me novamente no céu e nos desejos que metodicamente e irracionalmente cometia. Mais uma vez os meus ouvidos não estavam loucos, de um modo quase senil, os gritos reaparecem, fazendo um eco ainda mais grave, continuo sem perceber e, por isso mesmo, volto a não dar importância.
Um gato aninha-se ao meu colo, está gelado, tal como as minhas mãos, sou incapaz de lhe dar aquilo que ele me pede, estou fria, desprovida de qualquer aquecimento humano que possa ajudar um animal a resistir. Agora sim percebo os gritos, vêm algures de um homem bêbedo, percebo-lhe o adjectivo porque o próprio o assume atabalhoadas vezes.
Nas palavras há emoção, um choro desprotegido e algum rancor misturado de fraqueza humana, daquelas que mói, fazendo-nos acreditar que somos o início de todos os precipícios. Mais um dia em que alguém tomou de assalto o meu coração, desta vez perto de mim, tão perto que nem nos conhecemos.
Se o bêbedo voltar a passar por mim, peço-lhe que me cumprimente mas não deixe rasto.
Até lá esta é só mais uma história.
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